Grifar um livro gera uma lista de frases que o autor escreveu. Não gera um registro do que o livro defende, e por isso reler seus grifos seis meses depois é uma experiência tão estranha: cada linha parece familiar e nenhuma delas se soma às outras.
Um mapa resolve isso porque obriga você a fazer a única coisa que o grifo nunca pede: decidir onde cada ideia fica em relação às outras. O método aqui leva uns vinte minutos depois de terminar um livro de não ficção e produz algo a que você realmente consegue voltar.
Faça o mapa depois, não durante
Leia o livro primeiro. Mapear enquanto lê transforma você em estenógrafo: você segue a ordem dos capítulos do autor e reproduz a estrutura dele, que é a de um argumento sendo apresentado, não a estrutura da ideia.
Então leia normalmente, marque as passagens que importam (um grifo, uma dobra no canto da página, uma linha no caderno) e faça o mapa depois, a partir dessas marcas e da memória. O que você não lembra quase sempre não sustentava nada, e o mapa fica melhor sem isso.
Para um livro didático denso, o melhor é uma passada por capítulo. Aí é outro trabalho; veja como usar mapas mentais para estudar.
O esqueleto de quatro ramos
Coloque a afirmação central do livro no meio, em uma frase, com as suas palavras. Se você não consegue escrevê-la, essa é a descoberta, e o mapa já valeu os vinte minutos.
Depois, quatro ramos, sempre os mesmos quatro:
1. Afirmações. As três a seis coisas que o livro defende. Não são os capítulos; capítulos são embalagem. Sob cada afirmação, a evidência que o autor dá para ela.
2. Evidências e exemplos. Os estudos, histórias e números que você vai querer citar. Anote a página de cada um. É esse ramo que transforma um livro que você leu em um livro que você consegue usar numa discussão.
3. Objeções. Onde você discorda, onde a evidência é fraca, o que o autor não abordou. A maioria das pessoas pula esse ramo, e é ele que faz o mapa ser seu e não um resumo.
4. Ações e aplicações. O que muda porque você leu isto. No máximo três coisas. O que sobreviver aqui deve sair do mapa e ir para o sistema que de fato organiza a sua vida.
Tudo no livro que não se encaixa em nenhum dos quatro é curiosidade. Deixe pra lá.
Citações honestas
Uma regra, e ela importa mais que qualquer decisão de layout: marque as palavras do autor como sendo do autor.
Seis meses depois, você não vai lembrar se uma frase marcante era dele ou sua. Coloque as citações entre aspas, com o número da página; coloque as paráfrases em texto normal; coloque o seu próprio pensamento em uma nota ou em um tópico com estilo diferente. Não custa nada na hora de registrar e evita que você se cite como autoridade ou, pior, publique a frase de outra pessoa como se fosse sua.
Notas em qualquer tópico para as citações longas, ícones ou estilos para separar as palavras do autor das suas e links cruzados para ligar uma objeção à afirmação que ela enfraquece. Pastas mantêm um ano de livros fácil de encontrar.
O que ele fazLigando os livros entre si
O valor dos mapas de livros só se acumula se eles se conectarem. Dois hábitos de pouco esforço fazem a maior parte do trabalho:
Ligue as contradições dentro de um mapa. Quando o capítulo 7 do autor desmente o capítulo 2, desenhe a linha. Essa tensão é a coisa mais interessante que você vai levar do livro.
Mantenha um mapa contínuo entre livros. Um único mapa por tema ("atenção", "precificação", "como os hábitos se formam") com um ramo por livro embaixo. Quando dois autores discordam, você vê, e essa é a única forma confiável de perceber que leu seis livros que dizem a mesma coisa.
Dê nomes consistentes aos mapas (Autor — Título) e guarde-os numa pasta. A busca em toda a sua biblioteca é o que transforma quarenta mapas em uma referência; nomes inconsistentes são o que impede que isso funcione.
Ficção, em poucas palavras
O esqueleto de quatro ramos é para não ficção. Para um romance, os ramos úteis são outros: personagens e suas relações, linha do tempo, motivos recorrentes, as perguntas que o livro deixa abertas. As relações entre os personagens importam mais que a hierarquia, então espere recorrer a ligações cruzadas ou a um layout livre em vez de uma árvore arrumada.
A maioria das pessoas não precisa disso. Só faça o mapa de um romance se for estudá-lo ou escrever sobre ele.
Rever, que é o ponto de tudo
Um mapa que você nunca reabre é uma versão um pouco mais elegante de grifos que você nunca relê. Há duas ocasiões para abri-lo, e as duas são baratas:
- Quando você vai escrever ou debater sobre o tema. Busque o termo na sua biblioteca e o ramo de evidências faz o trabalho.
- Uma vez por trimestre, recolha todos os ramos até o primeiro nível e tente reconstruir as afirmações de memória. Expanda o que você não lembrar. Cinco minutos por livro, e é a diferença entre ter lido algo e saber aquilo.
Esse segundo hábito é prática de recuperação, e é a única parte de qualquer sistema de notas com evidência real por trás. O resto, os layouts, os temas, a estrutura de pastas perfeita, é arrumação.